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domingo, 1 de fevereiro de 2015

ESCOLHIDA POR DEUS PARA SER SUA SERVA



 No dia 16 de Fevereiro de 1935, em Lisboa, na freguesia de Penha de França, nasce uma criança do sexo feminino, com o nome muito especial e com um significado muito forte, FLORINDA DEOLINDA DE SOUSA,
Flor+linda, Deo+linda, significa «FLOR LINDA DE DEUS». A mãe não podia ter escolhido outro nome, porque esta flor tinha sido escolhida por Deus para ser sua serva, se não vejamos.
A pequenina flor logo aos cinco anos de idade fica órfã de mãe e o pai abandonou-a. Sem lar e sem família, foi para o Orfanato de Santa Isabel em Lisboa, sem carinho de pai e de mãe, com a sua deficiência, começa o seu calvário. Deste orfanato transita para a casa de recolhimento da D. Sílvia Cardoso, na Amadora, aqui recebeu o baptismo, esteve até aos oito anos.
Dia do Baptismo de uma sua catequizanda.
Novamente muda de “casa“, faz a caminhada para o Albergue da Mitra. Todas estas passagens são feitas sem o calor humano de uma família, sem o beijo de um pai e de uma mãe, sem poder brincar como deveria ser, mas esta pequenina flor de aparência frágil, consegue ultrapassar com sorrisos, agradecendo ao seu Pai e à sua Mãe Nossa Senhora. Novamente muda de casa, vai para casa de uma tia, mas a sua frágil saúde atira-a para uma cama do Hospital da Misericórdia de Lisboa, daqui para o Sanatório da Parede, sendo submetida a várias operações para poder andar. Aos dezoito anos de idade, fez a 4ª classe por iniciativa própria, porque até aqui não pode iniciar os estudos, mas a vontade de estudar era tão grande, contra tudo e contra todos, conseguiu completar o secundário.
Esta flor delicada já com 21 anos, parte para Angola, lá consegue o primeiro trabalho no Colégio das Irmãs Doroteias, dando aulas no primário e preparatório e ao mesmo tempo também estudava.
Neste colégio começa a dedicação da sua vida ao Pai, fazendo trabalhos para a igreja, fazendo parte das diversas irmandades, fez-se 3ª Carmelita, bem como noutras ordens.
Casa-se em 1973, com Lionilde Luis, viveu feliz até ao ano de 1982, ficando viúva.
Voltando ao ano de 1975, dá-se a independência de Angola, vem para Portugal com o seu marido, ingressou na paróquia de S. Paulo, sendo membro activo dos movimentos bíblicos e outras actividades.
Mais tarde, vem viver para Palmela nos anos 83/84, aqui fixou a sua vida, casando-se com João Jacinto no ano de 1986, sendo novamente feliz. Continuou sempre com muita força, com muito amor e a palavra não, não existia no seu vocabulário, mas sempre o Sim.
Aqui, começa o trabalho na paróquia da Quinta do Anjo, onde assume diversas actividades, fazendo formação cristã de jovens e adultos, pertenceu ao movimento da Mensagem de Fátima, faz o secretariado geral da paróquia e ao mesmo tempo ajuda a comunidade do Bairro Alentejano durante 24 anos, formando muitos jovens e adultos na caminhada cristã.
Mais tarde, a comunidade de Santo António de Aires, vem pedir-lhe o seu auxílio e mais uma vez não consegue dizer não.
Nesta comunidade assumiu as catequeses, formações de crismas, formações de adultos para o baptismo, bem como em Pegões, durante 8/9 anos.
Entretanto nesta caminhada, ainda há lugar para tirar o curso de Teologia = estudos de Deus=, e como esta flor delicada era insaciável, não ficou por aqui, inicia outro curso = Antropologia Filosófica =, este curso é interrompido porque no dia 3 de Novembro de 2014, o Pai vem busca-la para a companhia dele.
É o resumo possível de uma lição de vida que esta Grande Senhora nos deixou, onde a falta de amor, o brincar quando somos crianças, a incapacidade, a dor, o abandono, o não ter casa, família, andar de orfanato em orfanato, nunca foram barreiras para ser uma vencedora, com uma formação humana extraordinária, com uma doçura e com muito amor para dar, sempre com um sorriso nos lábios e com um sim no coração.
A flor delicada fez um percurso de vida dedicada a Deus e ao próximo.

25º Aniversário do Matrimónio
  Não posso deixar de incluir a despedida que nos deixou escrita no seu computador pessoal, não pode ficar só para alguns, porque ela, ao escreve-la seria para conhecimento geral, aqui vai a sua transcrição:

UMA DAS MINHAS HIEROFANIAS
Recordo-me com saudade, dos tempos em que vivia em Angola, numa terra situada no interior da Província da Huila, Jamba, assim se chamava essa terra.
Era costume, afastar-me do povoado e ir junto de uma lagoa que ficava um pouco afastada da Jamba e, aí, apreciar o maravilhoso pôr-do-sol. Era deslumbrante, porque o Sol descia pelo morro e, ia espraiar-se nas águas da lagoa, dando-lhes tons de oiro e de prata.
Era o meu lugar predilecto! Sozinha, ouvindo o chilreio dos pássaros que recolhiam aos seus ninhos, não podia deixar de pensar no Mistério que, dentro do meu peito, ardia como Sol que desaparecia por detrás do morro e me trazia uma serenidade, como água da lagoa que se deixava “ abraçar “ pelo Sol, num adeus de despedida.
Assim me preparo para ir para o Pai, pois está a chegar o fim da jornada, levo todos no coração, as minhas comunidades, os meus grupos de catequese, os meus Padres assistentes e em especial o meu JOÃO.
Adeus a todos que fique convosco a paz e o amor de Deus.
Deolinda

Com esta despedida só posso dizer Obrigada minha Grande Amiga do fundo coração e um até Sempre.

Odete Rodrigues

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

FAZENDO MEMÓRIA DO CASAL SOUSA RAMA

Altar do Santuário Real de Nossa Senhora da Atalaia.


Mário Miguel e Maria Cecília nasceram em Aldeia Galega do Ribatejo, hoje cidade de Montijo nos anos de 1920 e 1921.

Unidos pelo matrimónio, celebrado no Santuário de Nossa Senhora da Atalaia, também lá celebraram as bodas de ouro do mesmo.

Ambos tiveram uma caminhada de vida bonita, tanto a nível civil como cristão.

Mário Miguel foi militar, passando à reserva ingressou no Instituto de Engenharia Civil, foi provedor da Santa Casa da Misericórdia do Montijo, foi durante a sua vigência que decorreu a construção do atual edifício.

Fizeram parte das primeiras Equipas de Casais da nossa Paróquia, lembro–me que cada reunião era em casa de um casal, onde jantavam com o que cada um levava, eu algumas vezes ficava em casa deles a fazer companhia à sua única filha.

Os dois foram Ministros Extraordinários da Comunhão.

Participaram em cursos de cristandade, Maria Cecília de um curso que frequentou em 1966, ofereceu-me um livro com esta dedicatória «Para nós e para vós vivei a vida como deve ser vivida, no Amor de Cristo e em Cristo».

A preocupação pelos outros vem da mais tenra idade, no seu primeiro Novo Testamento, que eu guardo com muito carinho, escreveu:

« Aldegalega dia 28 dagosto (é assim que escreveu) de 1928, Maria Cecília Vasconcelos Farreu, Quero muito bem a menina Balbina». Pela data teria então sete anos (a menina Balbina seria a empregada).

Dedicou grande parte da sua vida aos mais carenciados, como responsável pelo Grupo Sócio Caritativo, quando foi homenageada, dedicou o prémio com que foi agraciada, à instituição e a quem com ela colaborava.

Presença serena, delicada e doce, de uma espiritualidade fortalecida na fé e na caridade vivida no amor de Cristo, de que deu sempre testemunho com espírito de missão.

Muito teríamos para recordar da longa vida deste casal, dou graças a Deus por eles terem sempre acompanhado o meu crescimento de fé e de vida.

Que o Senhor os tenha na Sua Santa Glória.



A afilhada

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

UM PROCESSO DE CONVERSÃO NA DIOCESE DE SETÚBAL


 

Não consigo indicar uma data, nem tão pouco um ano em que se tenha verificado o início da minha conversão, ou dizendo melhor, o início dos meus “contatos com Cristo”.



Mas para facilidade de descrição vou apontar para o ano de 1961, terá sido por volta deste ano que a minha avó materna, católica empenhada e convicta, procurou batizar-me.

Correu todas as igrejas da região de Almada, comigo e com a minha mãe, a falar com os sacerdotes para que algum se dispusesse a batizar-me, mesmo sem autorização do meu pai.

 O meu pai não deixava que me batizasse porque era de opinião que o batismo é um acto de muita responsabilidade e eu ainda com 4, ou 5 anos não tinha condições para assumir essa responsabilidade, ele próprio não estava disponível para fazer esse acompanhamento, nem reconhecia nos padrinhos, propostos, essa capacidade.

Como não conseguiu em Almada, nenhum padre, disponível para tal, então fomos para Lisboa tentar a “sorte” também não conseguiu.

Entretanto foi-me ensinando as orações (Pai Nosso, Avé Maria e Glória) ou seja o Terço. Também me foi apresentando Cristo como o meu melhor amigo, alguém sempre disposto a ajudar-me e a proteger--me.

Este terá sido o meu primeiro contacto com a religião católica e com Jesus Cristo.

Depois já no liceu D. João de Castro, secção de Almada, voltei a contatar com a Religião Católica através de aulas de religião e moral, cujo professor era o Pe. Sobral, deixei de o ver antes do final do ano letivo porque a PIDE foi lá buscá-lo ao liceu, estava justamente a ter aula com ele. Isto terá sido em 1966 /1967.

Só voltei a contatar com a Igreja já com 25 anos de idade, em 1982, quando necessitei de tratar das coisas para o meu casamento.

A minha mãe e a mãe da minha mulher gostavam que o casamento se realizasse na igreja.

Então surge a questão de eu não ser batizado, como fazer?

Fui falar com o Pe. Ricardo Gameiro, na Cova da Piedade, onde ia morar depois de casar.

Pus-lhe a questão “será que tenho de me batizar só por causa de puder casar? Ou quando me batizar que seja por verdadeira convicção?” entretanto contei-lhe também as peripécias com a minha avó materna.

Lembro-me do Pe. Ricardo olhar para mim, como que a avaliar a situação, depois de refletir um pouco diz-me “… talvez se encontre uma outra solução, vou verificar isso depois digo alguma coisa.”

Passados uns dias, talvez duas ou três semanas, recebi um contacto da igreja da Piedade para ir falar com o Pe. Ricardo. Fui e ele tinha encontrado uma solução, uma escusa do Bispo D. Manuel Martins.

Mas o sr. Bispo queria um compromisso meu em como não impediria as minhas filhas de serem batizadas e de seguirem a religião católica.

Assumi esse compromisso por escrito, numa carta que enviei e mais tarde quando as filhas nasceram preocupei-me em batizá-las e quando tiveram idade inscrevi-as e levei-as à catequese.

Entretanto eu continuava sem ser batizado.

A minha avó morreu e no ano seguinte a sr. Bispo D. Manuel Martins jubila-se e é substituído pelo atual Bispo, D. Gilberto Canavarro dos Reis.

No ano de 2001, em Outubro, por uma série de acontecimentos repentinos e por intervenção da minha mulher resolvi (em poucas horas) procurar o batismo falei com o Pe. António de Sousa Oliveira, na paróquia do Feijó, que aceitou fazer ele mesmo a minha preparação para o batismo e para o crisma.

No dia 30 de Maio de 2002 fui finalmente batizado.

Daí em diante foi toda uma caminhada em Igreja, até porque como eu disse ao Pe. António “… ser batizado não pode ser só vir à missa ao domingo … preciso de um curso para aprender a ser cristão …” o Pe. António falou-me nos cursilhos de cristandade e em Março de 2004 fui viver essa magnifica experiência de Cristo vivo. Daí em diante tem sido uma autêntica “correria” para Cristo.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Carmita Fortuna:



«Senhor, que eu não gaste inutilmente o tempo que me dás. Que saiba viver uma Vida cheia de Amor. Que eu saiba cumprir a Vontade do Pai e serei feliz, feliz!»


Cármen Antunes de Matos Fortuna, Carmita, nasceu em Quinta do Anjo, (Portugal), no dia 14 de Julho de 1937, no seio de uma família católica com poucos recursos económicos. Foi a décima primeira de 12 irmãos.
Aos 19 anos Carmita decidiu seguir o seu sonho, de se tornar uma "'mãe de família" para crianças que tinham sido abandonadas.
Em Maio de 1959, com apenas 21 anos, adotou o primeiro "filho", tinha apenas 20 dias e estava condenado a morrer de fome devido a falta de cuidados por parte da mãe, que era deficiente mental. Esta decisão da Carmita não for muito bem vista pelos que com ela conviviam, pois consideravam-na muito nova para assumir tamanha responsabilidade. Aquando da adoção da segunda "filha" com 7 anos, a Francelina, a reação geral já foi mais moderada, todavia, muitos não compreendiam como é que alguém era capaz de dedicar toda a sua vida a crianças que ninguém desejava. A adoção da terceira criança, a Gracinha, com apenas 15 meses, ainda não andava devido à fome qua sempre passara, foi um escândalo. Viu-se obrigada a abandonar o curso do Magistério e o seu emprego, no Sanatório do Outão, onde era secretaria. Algum tempo mais tarde, recebeu mais três irmãos (dois rapazes e urna rapariga) tinham 1, 6 e 10 anos respetivamente. No total, Carmita acolheu 6 crianças.
Foi internada no Instituto Português de Oncologia (IPO), pela primeira vês aos 22 anos, sendo-lhe diagnosticado cancro da mama. Era considerada um "Anjo Bom" para muitos que como ela se encontravam internados no IPO e graças ao seu singular poder de comunicabilidade e de estabelecer amizades, foi um verdadeiro exemplo de fé e perseverança, para muitos que estavam confinados a vaguear pelos corredores do IPO sem qualquer réstia de esperança. Soube transformar a sua vida num exercício constante de apostolado na escola, no emprego, junto dos amigos, na vizinhança, no hospital, em toda a parte; pela palavra, pela amizade, pelo amor...
Também se comprometeu em vários movimentos apostólicos organizados, como, a J.A.C.F (Juventude Agrária Católica Feminina) a nos Cursilhos de Cristandade; a todos marcou profundamente, não só pela sua fé, mas sobretudo pela sua coragem e audácia. Nunca se "entregou" à doença e manteve toda a sua vivacidade e entusiasmo contagiantes até aos últimos dias que permaneceu na terra.
A 14 de Maio de 1980, voltou para junto do Pai, deixando em todos os que com ela conviveram uma lição e um exemplo inestimável do valor do Amor e do viver para os outros.


 Testemunho de Mário da Silva Moura

Comecei a trabalhar no serviço de urgência do Hospital do Espírito Santo em 1953.
Atendia a qualquer hora as muitas pessoas que necessitavam de assistência para si ou para familiares, de noite ou de dia.
Uma ou duas vezes atendi uma jovem mãe com um qualquer problema num filho que trazia ao colo, mas despertou-me a atenção que das duas vezes a criança não era a mesma.
Muito atento aos problemas de relacionamento com os pacientes e a sua maneira de actuar, verifiquei que aquela mãe era duma ternura extrema para com os seus filhos apesar da sua franzina juventude.
O tempo ia passando e esta presença repetiu-se mais algumas vezes pelo que resolvi indagar de quem se tratava. Disseram-me então, para meu espanto, que era uma menina da Quinta do Anjo que deixara a sua própria profissão para acolher crianças abandonadas ou filhas de pais sem condições para as criar (prostitutas, alcoólicos, etc.).
Eu era ateu nessa altura e estava muito atento a actos de caridade que me apareciam no meu dia-a-dia - a bondade e o amor eram para mim algo de muito importante e tocavam-me no coração de maneira especial.
Estas presenças da Cármen Fortuna no banco do hospital foram alguns dos factos que mais contribuíram para vencer os meus problemas com Deus.
Assim comecei a ouvir falar e a conhecer a Carmita, como era conhecida, impressionado com a sua capacidade de entrega aos outros e mais impressionado ainda com toda a sua história de vida e a amorosidade que irradiava.
Fui também sabendo que pertencia a uma família de excepcionais características de preocupação com os outros e de vida cristã irrepreensível.
                                                        **
Ao fim de alguns anos com o acumular de testemunhos com este e após um Curso de Cristandade, acabei mesmo por aceitar que Deus residia nos nossos corações e que Jesus Cristo fora a Sua incarnação e continuava connosco.
E eram exemplos como o da Cármen Fortuna que davam corpo a esta verdade.
E de novo vim a contactar, agora com mais assiduidade e com outros olhos, com a Carmita que também acabou por frequentar um Cursilho na sua ânsia de entrega aos outros vindo a ser Reitora de cursos. Relembro como se apresentava nas reuniões como “mãe solteira, com seis filhos, um de cada pai!”, deixando toda a gente atónita até entender o que esta apresentação continha de substancia caritativa e de presença do Deus vivo!
Recordo também com encarou uma doença grave que a atingiu, como impressionava as pessoas com a sua aceitação do sofrimento (a sua Cruz!) e como animava as pessoas com quem convivia, até nos tempos do seu internamento hospitalar onde a sua acção apostólica ficou notabilizada – um testemunho exemplar, digno duma verdadeira santa!
A todos os que com ela conviviam era contagiante esta ternura, este espírito de entrega, esta alegria de viver, esta aceitação do sofrimento em oblação de si própria pelo bem dos outros, neste mundo tão cheio de miséria e de egoísmo.
Até aos seus últimos momentos, com sofrimento, se manteve fiel à sua Fé e à sua doação – o velório do seu corpo e o seu funeral foram verdadeiras homenagens a ela e ao Deus que a animava e sempre lhe orientou os seus passos. Foi uma manifestação de Fé extraordinária que impressionou e comoveu todos os que participaram em tal cerimónia fúnebre, cheia de cânticos, de alegria, ao som da leitura de versos escritos pela Carmita.
Um ambiente daqueles só foi possível porque o Espírito Santo pairava sobre aquela verdadeira santa.
                                                  **
Tomei depois conhecimento mais pormenorizado sobre a sua forma de vida e sobre a sua maneira de ser através dum livro escrito por um dos seus irmãos.
Mas o que escrevi acima é que é o meu verdadeiro testemunho, saído do meu coração, sobre a Carmita.
Entendo que já se devia ter tomado a iniciativa de abrir um processo de beatificação de Cármen de Matos Fortuna – a nossa Igreja necessita de santos verdadeiros que deram sempre testemunho do Amor aos outros em todas as circunstâncias da vida, indo como Cristo até a entrega da própria vida.


Fonte: carmita.org

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Oração de D. Gilberto para os 40 anos da Diocese: leitura e interpretação teológico-pastoral


Pai Santo,
Somos a Igreja de Setúbal
que reúnes e animas
pelos braços do Teu Filho e do Espírito Santo
e que quer celebrar quarenta anos de Diocese.

= Somos a Igreja de Setúbal
À boa maneira paulina, se refere que a Igreja está, vive e faz-se num contexto sócio/geográfico muito concreto. Aqui se refere a realidade diocesana, onde cada um se sente parte dos outros que consigo caminham, sofrem, alegram-se, vivendo a graça do perdão e da comunidade.
As paróquias só têm sentido se estiverem em comunhão com a Diocese.

= Que reúnes e animas...
A ‘Igreja’ é a reunião dos irmãos, cuja expressão máxima se exprime na eucaristia. Reunião e animação que não dependem só dos fatores humanos nem dos ingredientes sociais.

= Pelos braços do Teu Filho e do Espírito Santo
Na linguagem dos padres da Igreja, nós somos ‘um povo unido pela unidade do Pai e do Filho no Espírito Santo’ (cfr. LG 4). Deste modo a Igreja é o ícone da Santíssima Trindade, onde o Pai e o Filho e o Espírito santo constroem e animam a vida dos cristãos e a comunhão das instituições.

= Que quer celebrar 40 anos de Diocese

Somos uma Igreja no espaço e no tempo, com história e com memória...no passado e com presente!
Pai santo,
nesta hora feliz, damos-te graças
por tantas pessoas, instituições e acontecimentos,
que são sinais do Teu amor por nós.

= Pai santo, nesta hora feliz, damos-te graças
A celebração dos 40 anos da Diocese de Setúbal é um momento de felicidade de índole espiritual e motivo de ação de graças… sendo a eucaristia uma dos expoentes máximos dessa vivência de gratuidade e de agradecimento pela ação da graça de Deus nesta porção do povo de Deus.

= Por tantas pessoas, instituições e acontecimentos
Eis uma pequena (mas significativa) lista de motivos para esta ação de graças, como diocese: as pessoas que habitam entre o Tejo e o Sado que se esforçam por fazerem parte desta Igreja; as instituições tanto de natureza civil como eclesial ou mesmo associativas e imensos acontecimentos que decorreram nestes 40 anos, tantos agradáveis como difíceis… tudo faz parte da vida e fez caminho de vida nesta e para esta Igreja.

= Que são sinais do teu amor por nós
Eis uma leitura urgente a fazer: ver tudo como sinal de Deus, nada é desperdiçado nem ninguém é excluído da nossa história pessoal e familiar, social e eclesial. Se tivéssemos, assim, uma visão de fé, pela esperança e na caridade tudo seria bem interpretado em Deus… para louvor d’Aquele para Quem tudo concorre para o bem daqueles que O amam! 

E pedimos-te
a paixão pela santidade,
a fé viva alimentada pela Palavra e pela Eucaristia
e um coração acolhedor de todos, sobretudo dos pobres.

= Pedimos-te a paixão pela santidade
Iniciamos uma série de ‘pedidos’ (intercessões e petições) para todos como Igreja e não meramente para cada um de forma isolada. Somos um corpo de Cristo santificado pelo poder do Espírito Santo. É, por isso, que solicitamos ao Pai que derrame o seu Espírito de santidade em nós, como diz o concílio Vaticano II, ‘santa Igreja dos pecadores’ (LG 48), isto é santa na sua natureza embora pecadora nos seus membros.
Mais do que uma qualidade da Igreja, a santidade que suplicamos é uma condição de afirmação dos cristãos no mundo: santos embora sujeitos à condição terrena de tentados e de pecadores.
Temos de assumir a ‘paixão pela santidade’ e isso fará de cada um de nós e de todos nós um povo marcado pela unção da santidade na vida de cada dia.

= A fé viva alimentada pela Palavra…
O cristão alimenta-se do ‘pão da vida’ seja na Palavra de Deus, revelada na Sagrada Escritura, seja pelo anúncio evangelizador da mesma Palavra na Igreja. Precisamos de ultrapassar o défice de conhecimentos da Bíblia, lendo, escutando, meditando e rezando a Mensagem da salvação que nos é comunicada na Palavra de Deus escrita e na Tradição. Não podemos continuar a ser ignorantes daquilo que Deus nos diz na Sua Palavra.
Em cada idade temos de acertar com o ritmo da nossa consciencialização humana e a aferição do nosso viver com a Palavra de Deus viva e eficaz… Certamente já crescemos muito, mas ainda nos falta muito mais.

= … e pela Eucaristia
À boa maneira dos primeiros cristãos precisamos, hoje, de dizer e viver: não podemos viver sem a eucaristia, sobretudo dominical. Os dados de afastamento da prática da eucaristia de domingo são preocupantes: seremos cerca de 4% em relação à população residente na área da diocese – 31.413 praticantes em 779.373 habitantes…
A chama do encontro com Cristo está muito fragilizada e, por isso, com muita facilidade se deixa ou abandona a missa de domingo… De fato, há mais igrejas, nestes 40 anos de diocese, mas os praticantes não cresceram tanto quanto era suposto… Há muita coisa a corrigir com verdade e humildade, dando testemunho da celebração da missa dominical, que dá sabor e alegria à nossa vida.

= Um coração acolhedor de todos…
Numa igreja minoritária há que mudar de estratégias, pois quem chega precisa de ser acolhido. Falta-nos. Normalmente, um serviço de acolhimento – desde a sua expressão mais simplista até à mais delicada – de quem nos procura, inserido numa visão de saber receber, aprender a escutar, ter tempo para explicar, incluir e enquadrar quem chega… Mais do que um cliente, esse/a que nos procura é um irmão ou uma irmã em quem Cristo está presente… seja conhecido ou desconhecido!

= … sobretudo dos pobres
Estes são os mais frágeis, os vulneráveis, os desempregados, as vítimas dos vícios, do desprezo… sem comida, sem casa (ou com a renda em atraso), sem água nem eletricidade… Esse pobre tem de ser acolhido com coração compassivo e misericordioso, não atendendo a quem é, mas a Quem ele represente, Jesus pobre e necessitado. 



Pedimos-te 
a graça de crescer como comunidade,
onde cada um se sinta amado
e se torne pedra viva e lugar de acolhimento.

= A graça de crescer como comunidade
Desde logo vale a pena ver a composição desta palavra: comum – unidade, isto é, tentarmos viver na comum unidade de irmãos na mesma fé a partir do mesmo Cristo em Igreja… Embora se possa dizer muito esta palavra, ela é, antes de tudo, uma dinâmica que se alicerça num coração convertido a Jesus e aos outros. Pois, os outros são a nossa componente de caminhada para crescermos – claro com atritos e diferenças – e não para nos ofendermos ou melindrarmos…
‘Crescer’ implica vida e dificuldade e, por vezes, esse crescimento traz crises, tendo em conta a etimologia desta palavra: momento de decisão, faculdade de distinguir, decisão… Todos nós temos de passar por crises de crescimento – na idade, na personalidade, na maturidade – e, se acontece nas pessoas, também acontecerá na convivência com outros.
Temos consciência de crescer como comunidade? Ou será que vivemos num certo ambiente tão pacato que mais parece um cemitério?
Crescer como comunidade implica conversão contínua e humilde… e precisamos de pedi-lo a Deus.

= Onde cada um se sinta amado
Ninguém se sente bem, seja onde for ou com quem for, se não se sentir amado, que é muito mais do que tolerado ou aturado… Ora, nós pedimos que, em comunidade, vamos crescendo em atitude de estima e acolhimento e ainda onde cada pessoa seja vista como é e não a partir dos adereços sociais, de instrução ou até de pretensão.
O desafio é alto e urgente, mas as etapas estão-nos acessíveis e à nossa disposição: à semelhança de Jesus temos de amar e de ser amados, ou como tem dito o Papa Francisco: cuidar e deixar-se cuidar… aprendendo a perdoar os erros e falhas dos outros para sermos também nós perdoados pelos outros, sobretudo pelos que nos conhecem (ou vão conhecendo) melhor.

= E se torne pedra viva…
Ser pedra viva do templo do Senhor, que é Igreja, é estar consciente da sua vocação e missão na Igreja e mesmo no mundo, pois só assim nos sentimos parte uns dos outros e criadores de comunhão à nossa volta. Não pode haver cristãos-sanguessuga, isto é que vivem à custa dos outros, nada fazem e quase tudo e todos criticam. Temos de descobrir e exercer os carismas que Deus nos concedeu para o crescimento da comunidade-Igreja. 

=… e lugar de acolhimento
Tendo sido acolhido, agora se reveste a mesma atitude: mais do que retribuir o que nos deram, devemos estar de coração aberto para acolher como Jesus. As figuras do samaritano (Lc 10,29-37) e da samaritana (Jo 4,1-42) podem servir-nos de modelos para viver este exercício contínuo de acolhimento: como cuidado pelos mais frágeis e como anunciadores do encontro com Jesus, que nos mudou a nossa vida. 


Pedimos-te
que, guiados pelo Espírito de Jesus,
sejamos ‘Igreja em saída’
a anunciar a todos a alegria do Evangelho.

= Guiados pelo Espírito de Jesus
Ungidos, somos enviados. Com efeito, o evangelho está contido entre duas palavras de Jesus: ‘vinde’ e ‘ide’… vinde após Mim e farei de vós pescadores de homens…E Eu envio!
Novamente pedimos ao Pai que, por Jesus, vivamos a dinâmica do envio, isto é, da missão. Não podemos ser cristãos só do templo, pois poderemos ser encurralados na sacristia, mas, partir da celebração da eucaristia, partimos para a missão. Nas palavras do Papa João Paulo II: da missa para a missão, isto é, a missa começa quando acaba a celebra-ção da eucaristia, esta faz-se presença e testemunho. Quem nos faz viver isso é o Espírito de Jesus, esse mesmo que O conduziu na sua vida pública de anúncio do Reino messiânico.

= Sejamos ‘Igreja em saída’
Esta expressão tem sido muito difundida pelo Papa Francisco. Diz-se na ‘Alegria do Evangelho’ : «Na Palavra de Deus, aparece constantemente este dinamismo de ‘saída’, que Deus quer provocar nos crentes (…) Que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de ‘saída’ e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade» (EG 20.27).
Desta forma estar em saída faz com que deixemos as amarras de segurança rotineira e as certezas duma fé cristalizada, para podermos entrar na aventura de novos horizontes e diferentes campos de intervenção… sem o cheiro a cera ou a pescar no aquário.

= A anunciar a todos a alegria do Evangelho
Este pedido é muito mais do que entender o que o Papa nos diz na exortação que nos faz ler e meditar com o mesmo nome. Este pedido é fazer com que o Evangelho seja isso que significa: boa nova para todos… sem anátemas nem excomunhões, tanto para fora como para dentro do espaço eclesial.
Há tantos campos e esferas de intervenção que só pela alegria d Evangelho poderemos penetrar com confiança e verdade. Como dizia recentemente o Papa: ‘nunca um santo teve uma cara de enterro. Os santos sempre tiveram o rosto da alegria, ou, pelo menos, o rosto da paz’!

Pedimos-te, com Maria,
um coração orante e tão cheio do teu amor
que encha de alegria as pessoas que encontramos.
Ámen.


= Pedimos-te com Maria
À boa maneira das mais recentes intervenções dos Papas, o nosso Bispo coloca, o final desta oração, aos cuidados de Nossa Senhora. Com efeito, Ela é a mãe, a protetora e a intercessora da nossa caminhada em Igreja e como Igreja diocesana, as famílias e as pessoas… tanto as crentes como todas as outras que vivem neste espaço diocesano.
= Um coração orante…
Depois de pedirmos um coração santo, um coração acolhedor e um coração ungido pelo Espírito Santo, queremos viver tudo isto com um coração orante, isto é, que vê, acolhe, aceita e contempla a presença de Deus nas coisas, nos acontecimentos, nas pessoas e na história… Rezamos com tudo e rezamos por tudo o que nos acontece.
= …e tão cheio do teu amor
É Deus quem preenche as nossas lacunas e infidelidades pela fidelidade Maria, com Ela, por Ela e n’Ela. A cheia de graça derrama sobre nós as graças e bênçãos divinas, hoje e para sempre.
= Que encha de alegria as pessoas que encontramos
Do trono da graça – que é por excelência Jesus e por participação especial Nossa Senhora – se derramam as bênçãos do Céu sobre a Terra, como lugar de provação, de anúncio e de testemunho. A paz e a alegria se derramem na nossa vida e através de nós, como portadores da bênção, se irradiem onde quer que se encontre um cristão.
Amen!


António Sílvio Couto
(10.janeiro.2015)