quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Aliança de Misericórdia, numa diocese da Misericórdia



           
 O movimento Aliança de Misericórdia caracteriza-se por uma vivência e um anúncio ardoroso da Misericórdia de Deus, para com todos os pobres, sejam eles material ou espiritualmente, tendo sua origem no Brasil e presente em mais 6 países (Portugal, Itália, Bélgica, Polónia, Venezuela e Republica Dominicana).

            Atendendo ao convite de fazermos memória da nossa história e relaciona-la com a historia da nossa Diocese, vejo que apesar de pouco tempo, poderíamos escrever alguns livros e ainda seriam poucos para relatar o milagre que testemunhamos diariamente nesta Terra de Santa Maria.

            Por muito tempo caminhávamos à procura de um espaço em que pudéssemos desenvolver a Evangelização de acordo com que o nosso carisma exige e, portanto, chegando a esta igreja local, encontramos mais que um espaço físico…. Encontramos uma Igreja em saída…uma Igreja da Misericórdia.

            Fizemos uma proposta de Evangelização para nosso Bispo Dom Gilberto que, após um tempo de discernimento, aprovou e acolheu a comunidade, iniciando assim uma nova fase da missão em solo lusitano. Logo nos foi apresentada a Quinta-do-Álamo, um espaço muito amplo e próximo daquilo que Nosso Senhor nos inspirava para a Missão nesta Igreja. Começamos um período de conversações a fim de chegarmos a um acordo sobre como seria a nossa permanência neste local.

            Chegando a bom termo, viemos habitar na Quinta-do-Álamo e de maneira impressionante, Deus nos surpreendia com a sua providência divina. Em menos de um ano, dia após dia, assistimos o milagre acontecer, pois antes de morarmos no Álamo, residíamos em casas arrendadas em Lisboa e quando partimos para o Seixal não tínhamos muita coisa para trazer. Basicamente tínhamos as nossas roupas e um carro, pois os móveis e demais objetos pertenciam aos proprietários das devidas casas.

            Mas na certeza que a vida de despojamento atrai, porque é uma vida à maneira da Vida De Cristo, aquele que não tinha onde reclinar a cabeça, em pouco tempo muitas pessoas foram se aproximando da comunidade, fosse para estar connosco algum momento do dia, fosse para rezar ou ir à capelinha de oração… bem como pessoas que chegaram e foram sinais da Providencia Divina. Pouco a pouco fomos melhorando a estrutura da casa, de modo a criar melhores ambientes para o bom desenvolvimento da comunidade e para a Evangelização. Se no início morávamos um tanto apertados e até mesmo improvisando cómodos, um ano depois temos a graça de estar melhor instalados e com a possibilidade de acolher quem bate à nossa porta. Como dizia certa vez um jovem que encontramos nos bares do Seixal, numa noite de Missão, estando ele naquela realidade das drogas, que não sabia que a Igreja Católica saía às ruas para falar com os jovens e que estava realmente surpreso e agradecido por o terem escutado sem o terem julgado por aquilo que fazia ou o modo como vivia.

“Acreditamos que ninguém é tão pobre que não tenha algo para dar e nem tão rico que não tenha algo para receber.”

            Esta é nossa breve história mas em tudo damos Graças, e por esta Diocese de Setúbal que ao longo desses 40 anos gerou muitas vidas para a Igreja, contribuindo para a construção de um Mundo Novo, a que chamamos de “ Civilização do Amor”.


            Portanto como família diocesana digamos juntos:

“ Igreja de Setúbal, com Maria Alegra-te e Evangeliza”


Deus nos abençoe,


Missionário Luiz

Comunidade Aliança de Misericórdia






terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Oração de D. Gilberto para os 40 anos da Diocese: leitura e interpretação teológico-pastoral


Pai Santo,
Somos a Igreja de Setúbal
que reúnes e animas
pelos braços do Teu Filho e do Espírito Santo
e que quer celebrar quarenta anos de Diocese.

= Somos a Igreja de Setúbal
À boa maneira paulina, se refere que a Igreja está, vive e faz-se num contexto sócio/geográfico muito concreto. Aqui se refere a realidade diocesana, onde cada um se sente parte dos outros que consigo caminham, sofrem, alegram-se, vivendo a graça do perdão e da comunidade.
As paróquias só têm sentido se estiverem em comunhão com a Diocese.

= Que reúnes e animas...
A ‘Igreja’ é a reunião dos irmãos, cuja expressão máxima se exprime na eucaristia. Reunião e animação que não dependem só dos fatores humanos nem dos ingredientes sociais.

= Pelos braços do Teu Filho e do Espírito Santo
Na linguagem dos padres da Igreja, nós somos ‘um povo unido pela unidade do Pai e do Filho no Espírito Santo’ (cfr. LG 4). Deste modo a Igreja é o ícone da Santíssima Trindade, onde o Pai e o Filho e o Espírito santo constroem e animam a vida dos cristãos e a comunhão das instituições.

= Que quer celebrar 40 anos de Diocese

Somos uma Igreja no espaço e no tempo, com história e com memória...no passado e com presente!
Pai santo,
nesta hora feliz, damos-te graças
por tantas pessoas, instituições e acontecimentos,
que são sinais do Teu amor por nós.

= Pai santo, nesta hora feliz, damos-te graças
A celebração dos 40 anos da Diocese de Setúbal é um momento de felicidade de índole espiritual e motivo de ação de graças… sendo a eucaristia uma dos expoentes máximos dessa vivência de gratuidade e de agradecimento pela ação da graça de Deus nesta porção do povo de Deus.

= Por tantas pessoas, instituições e acontecimentos
Eis uma pequena (mas significativa) lista de motivos para esta ação de graças, como diocese: as pessoas que habitam entre o Tejo e o Sado que se esforçam por fazerem parte desta Igreja; as instituições tanto de natureza civil como eclesial ou mesmo associativas e imensos acontecimentos que decorreram nestes 40 anos, tantos agradáveis como difíceis… tudo faz parte da vida e fez caminho de vida nesta e para esta Igreja.

= Que são sinais do teu amor por nós
Eis uma leitura urgente a fazer: ver tudo como sinal de Deus, nada é desperdiçado nem ninguém é excluído da nossa história pessoal e familiar, social e eclesial. Se tivéssemos, assim, uma visão de fé, pela esperança e na caridade tudo seria bem interpretado em Deus… para louvor d’Aquele para Quem tudo concorre para o bem daqueles que O amam! 

E pedimos-te
a paixão pela santidade,
a fé viva alimentada pela Palavra e pela Eucaristia
e um coração acolhedor de todos, sobretudo dos pobres.

= Pedimos-te a paixão pela santidade
Iniciamos uma série de ‘pedidos’ (intercessões e petições) para todos como Igreja e não meramente para cada um de forma isolada. Somos um corpo de Cristo santificado pelo poder do Espírito Santo. É, por isso, que solicitamos ao Pai que derrame o seu Espírito de santidade em nós, como diz o concílio Vaticano II, ‘santa Igreja dos pecadores’ (LG 48), isto é santa na sua natureza embora pecadora nos seus membros.
Mais do que uma qualidade da Igreja, a santidade que suplicamos é uma condição de afirmação dos cristãos no mundo: santos embora sujeitos à condição terrena de tentados e de pecadores.
Temos de assumir a ‘paixão pela santidade’ e isso fará de cada um de nós e de todos nós um povo marcado pela unção da santidade na vida de cada dia.

= A fé viva alimentada pela Palavra…
O cristão alimenta-se do ‘pão da vida’ seja na Palavra de Deus, revelada na Sagrada Escritura, seja pelo anúncio evangelizador da mesma Palavra na Igreja. Precisamos de ultrapassar o défice de conhecimentos da Bíblia, lendo, escutando, meditando e rezando a Mensagem da salvação que nos é comunicada na Palavra de Deus escrita e na Tradição. Não podemos continuar a ser ignorantes daquilo que Deus nos diz na Sua Palavra.
Em cada idade temos de acertar com o ritmo da nossa consciencialização humana e a aferição do nosso viver com a Palavra de Deus viva e eficaz… Certamente já crescemos muito, mas ainda nos falta muito mais.

= … e pela Eucaristia
À boa maneira dos primeiros cristãos precisamos, hoje, de dizer e viver: não podemos viver sem a eucaristia, sobretudo dominical. Os dados de afastamento da prática da eucaristia de domingo são preocupantes: seremos cerca de 4% em relação à população residente na área da diocese – 31.413 praticantes em 779.373 habitantes…
A chama do encontro com Cristo está muito fragilizada e, por isso, com muita facilidade se deixa ou abandona a missa de domingo… De fato, há mais igrejas, nestes 40 anos de diocese, mas os praticantes não cresceram tanto quanto era suposto… Há muita coisa a corrigir com verdade e humildade, dando testemunho da celebração da missa dominical, que dá sabor e alegria à nossa vida.

= Um coração acolhedor de todos…
Numa igreja minoritária há que mudar de estratégias, pois quem chega precisa de ser acolhido. Falta-nos. Normalmente, um serviço de acolhimento – desde a sua expressão mais simplista até à mais delicada – de quem nos procura, inserido numa visão de saber receber, aprender a escutar, ter tempo para explicar, incluir e enquadrar quem chega… Mais do que um cliente, esse/a que nos procura é um irmão ou uma irmã em quem Cristo está presente… seja conhecido ou desconhecido!

= … sobretudo dos pobres
Estes são os mais frágeis, os vulneráveis, os desempregados, as vítimas dos vícios, do desprezo… sem comida, sem casa (ou com a renda em atraso), sem água nem eletricidade… Esse pobre tem de ser acolhido com coração compassivo e misericordioso, não atendendo a quem é, mas a Quem ele represente, Jesus pobre e necessitado. 



Pedimos-te 
a graça de crescer como comunidade,
onde cada um se sinta amado
e se torne pedra viva e lugar de acolhimento.

= A graça de crescer como comunidade
Desde logo vale a pena ver a composição desta palavra: comum – unidade, isto é, tentarmos viver na comum unidade de irmãos na mesma fé a partir do mesmo Cristo em Igreja… Embora se possa dizer muito esta palavra, ela é, antes de tudo, uma dinâmica que se alicerça num coração convertido a Jesus e aos outros. Pois, os outros são a nossa componente de caminhada para crescermos – claro com atritos e diferenças – e não para nos ofendermos ou melindrarmos…
‘Crescer’ implica vida e dificuldade e, por vezes, esse crescimento traz crises, tendo em conta a etimologia desta palavra: momento de decisão, faculdade de distinguir, decisão… Todos nós temos de passar por crises de crescimento – na idade, na personalidade, na maturidade – e, se acontece nas pessoas, também acontecerá na convivência com outros.
Temos consciência de crescer como comunidade? Ou será que vivemos num certo ambiente tão pacato que mais parece um cemitério?
Crescer como comunidade implica conversão contínua e humilde… e precisamos de pedi-lo a Deus.

= Onde cada um se sinta amado
Ninguém se sente bem, seja onde for ou com quem for, se não se sentir amado, que é muito mais do que tolerado ou aturado… Ora, nós pedimos que, em comunidade, vamos crescendo em atitude de estima e acolhimento e ainda onde cada pessoa seja vista como é e não a partir dos adereços sociais, de instrução ou até de pretensão.
O desafio é alto e urgente, mas as etapas estão-nos acessíveis e à nossa disposição: à semelhança de Jesus temos de amar e de ser amados, ou como tem dito o Papa Francisco: cuidar e deixar-se cuidar… aprendendo a perdoar os erros e falhas dos outros para sermos também nós perdoados pelos outros, sobretudo pelos que nos conhecem (ou vão conhecendo) melhor.

= E se torne pedra viva…
Ser pedra viva do templo do Senhor, que é Igreja, é estar consciente da sua vocação e missão na Igreja e mesmo no mundo, pois só assim nos sentimos parte uns dos outros e criadores de comunhão à nossa volta. Não pode haver cristãos-sanguessuga, isto é que vivem à custa dos outros, nada fazem e quase tudo e todos criticam. Temos de descobrir e exercer os carismas que Deus nos concedeu para o crescimento da comunidade-Igreja. 

=… e lugar de acolhimento
Tendo sido acolhido, agora se reveste a mesma atitude: mais do que retribuir o que nos deram, devemos estar de coração aberto para acolher como Jesus. As figuras do samaritano (Lc 10,29-37) e da samaritana (Jo 4,1-42) podem servir-nos de modelos para viver este exercício contínuo de acolhimento: como cuidado pelos mais frágeis e como anunciadores do encontro com Jesus, que nos mudou a nossa vida. 


Pedimos-te
que, guiados pelo Espírito de Jesus,
sejamos ‘Igreja em saída’
a anunciar a todos a alegria do Evangelho.

= Guiados pelo Espírito de Jesus
Ungidos, somos enviados. Com efeito, o evangelho está contido entre duas palavras de Jesus: ‘vinde’ e ‘ide’… vinde após Mim e farei de vós pescadores de homens…E Eu envio!
Novamente pedimos ao Pai que, por Jesus, vivamos a dinâmica do envio, isto é, da missão. Não podemos ser cristãos só do templo, pois poderemos ser encurralados na sacristia, mas, partir da celebração da eucaristia, partimos para a missão. Nas palavras do Papa João Paulo II: da missa para a missão, isto é, a missa começa quando acaba a celebra-ção da eucaristia, esta faz-se presença e testemunho. Quem nos faz viver isso é o Espírito de Jesus, esse mesmo que O conduziu na sua vida pública de anúncio do Reino messiânico.

= Sejamos ‘Igreja em saída’
Esta expressão tem sido muito difundida pelo Papa Francisco. Diz-se na ‘Alegria do Evangelho’ : «Na Palavra de Deus, aparece constantemente este dinamismo de ‘saída’, que Deus quer provocar nos crentes (…) Que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de ‘saída’ e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade» (EG 20.27).
Desta forma estar em saída faz com que deixemos as amarras de segurança rotineira e as certezas duma fé cristalizada, para podermos entrar na aventura de novos horizontes e diferentes campos de intervenção… sem o cheiro a cera ou a pescar no aquário.

= A anunciar a todos a alegria do Evangelho
Este pedido é muito mais do que entender o que o Papa nos diz na exortação que nos faz ler e meditar com o mesmo nome. Este pedido é fazer com que o Evangelho seja isso que significa: boa nova para todos… sem anátemas nem excomunhões, tanto para fora como para dentro do espaço eclesial.
Há tantos campos e esferas de intervenção que só pela alegria d Evangelho poderemos penetrar com confiança e verdade. Como dizia recentemente o Papa: ‘nunca um santo teve uma cara de enterro. Os santos sempre tiveram o rosto da alegria, ou, pelo menos, o rosto da paz’!

Pedimos-te, com Maria,
um coração orante e tão cheio do teu amor
que encha de alegria as pessoas que encontramos.
Ámen.


= Pedimos-te com Maria
À boa maneira das mais recentes intervenções dos Papas, o nosso Bispo coloca, o final desta oração, aos cuidados de Nossa Senhora. Com efeito, Ela é a mãe, a protetora e a intercessora da nossa caminhada em Igreja e como Igreja diocesana, as famílias e as pessoas… tanto as crentes como todas as outras que vivem neste espaço diocesano.
= Um coração orante…
Depois de pedirmos um coração santo, um coração acolhedor e um coração ungido pelo Espírito Santo, queremos viver tudo isto com um coração orante, isto é, que vê, acolhe, aceita e contempla a presença de Deus nas coisas, nos acontecimentos, nas pessoas e na história… Rezamos com tudo e rezamos por tudo o que nos acontece.
= …e tão cheio do teu amor
É Deus quem preenche as nossas lacunas e infidelidades pela fidelidade Maria, com Ela, por Ela e n’Ela. A cheia de graça derrama sobre nós as graças e bênçãos divinas, hoje e para sempre.
= Que encha de alegria as pessoas que encontramos
Do trono da graça – que é por excelência Jesus e por participação especial Nossa Senhora – se derramam as bênçãos do Céu sobre a Terra, como lugar de provação, de anúncio e de testemunho. A paz e a alegria se derramem na nossa vida e através de nós, como portadores da bênção, se irradiem onde quer que se encontre um cristão.
Amen!


António Sílvio Couto
(10.janeiro.2015)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Seminário de São Paulo de Almada


O Seminário de São Paulo de Almada foi fundado como seminário do Patriarcado de Lisboa no ano de 1935, mas já antes a casa contava com um rico historial, de grande relevo na vida de Portugal e de toda a zona circundante de Lisboa. Assim, a vida desta belíssima casa começa no já longínquo ano de 1569, com a fundação do Convento Dominicano de São Paulo de Almada por Frei Francisco Foreiro, insígne teólogo que se distinguiu no Concílio de Trento, e então Provincial da sua Ordem no nosso país, que nele viria a falecer e ser sepultado em 1581, onde ainda hoje se encontra.

Em 1755, o Convento sofre grandes danos, e só a Igreja é restaurada quase de imediato, motivo pelo qual passa a sede da paróquia de Nª Sª da Assunção do Castelo, cuja igreja havia caído com o sismo. Dez anos depois, e porque as condições nunca mais foram as mesmas desde aquele catalismo, os Frades Pregadores abandonam o Convento de São Paulo.Começa aqui o rol das muitas tribulações e mãos pelas quais o Convento passou. Em 1775, os Dominicanos vendem a quinta a um industrial francês, François Palyart, e a casa conventual, em 1776 aparece já na posse das Ordens Militares, que por sua vez, e ainda no mesmo ano, a tornam a vender, desta feita ao mesmo francês que já tinha comprado a quinta. A igreja e uma das alas do convento ficaram para a paróquia.Com o decreto de extinção das Ordens Religiosas de 1834, os bens dessas instituições passam a fazer parte do património estatal, mas isso em nada afecta a Igreja de São Paulo, que era paroquial e não de ordem religiosa. Mas no ano seguinte, perde esse carácter, pois a paróquia de Nª Sª da Assunção do Castelo foi definitivamente incorporada na de Santiago de Almada, ficando a igreja entregue aos cuidados de uma das suas irmandades, a do Rosário. Segue-se uma fase extremamente confusa, com vendas e contravendas, falências e casos mal esclarecidos. 
Chegamos, entretanto, a 1855 com uma situação no mínimo caricata: a quinta e a casa eram de um proprietário, mas o corredor da Sacristia era de outro. E assim se foi caminhando, com tudo a ameaçar derrocada total. A irmandade da Assunção, para não deixar que a igreja se danificasse, fez restauros em 1897. Em 1913 está danificada grandemente, tendo sido as imagens atiradas pela ravina ou queimadas. Alguma coisa escapou, mas nada ficou incólume.Em 1934, o Patriarcado de Lisboa adquire a Quinta e o Convento, por intermédio do Cónego José Falcã, para instalação do Seminário Menor, sendo este inaugurado no ano seguinte, a 20 de Outubro de 1935, pelo então Patriarca D. Manuel Gonçalves Cerejeira, com 41 seminaristas. O seu primeiro Reitor foi Monsenhor Francisco Félix, e o primeiro Vice-Reitor, o Padre António de Campos, mais tarde ordenado Bispo. Por o espaço ser relativamente exíguo para o que se necessitava, logo em 1936 começam obras de ampliação, que foram terminadas e inauguradas em 1938.Cumpridas que foram, em 1960, as Bodas de Prata do Seminário, este preparava-se para atravessar o Concílio Vaticano II. No fim deste, em 1965, surgiu uma novidade: o Patriarcado de Lisboa iria criar três zonas pastorais - Santarém, Oeste e Setúbal - com vista à sua elevação a Dioceses. O Seminário de Almada ficou assim plenamente integrado na Zona pastoral de Setúbal. Os acontecimentos, no entanto, não tomaram um rumo linear: nas conversações e nas reuniões havidas no seio da Conferência Episcopal Portuguesa sobre a criação e os limites das novas dioceses, o Cardeal Cerejeira opôs-se a que o Santuário do Cristo-Rei e o Seminário de Almada fossem integrados no território da nova Diocese de Setúbal. A votação então havida foi inconclusiva, com a diferença de um voto a separar os bispos secundantes desta opinião e os seus opositores, para quem tudo o que estava abaixo da linha do Tejo no território do Patriarcado devia fazer parte da nova Diocese de Setúbal. E assim, a 16 de Outubro de 1975, pela Bula Studentes Nos, do Papa Paulo VI, era criada a Diocese de Setúbal, sem o Seminário de Almada e o Santuário de Cristo-Rei. No entanto, mercê das insistências do Cónego João Alves, antigo Vice-Reitor do Seminário, que viria a ser Bispo de Coimbra e Presidente da Conferência Episcopal, a Bula trazia a clausula de que as duas instituições só ficariam em administração do Patriarcado «enquanto não se pode providenciar doutro modo».
 


Enquanto isso, na nova diocese de Setúbal, nascia o Seminário Diocesano logo a 2 de Fevereiro de 1976, pela mão do seu primeiro bispo, D. Manuel Martins. Este seminário, no entanto, não teve outra existência senão a formal durante cerca de quinze anos, com os seminaristas de Setúbal a fazerem a formação fora do território da diocese, na sua maior parte nos seminários de Almada e Olivais, do Patriarcado. Ao mesmo tempo que, em 1986, o Seminário de São Paulo comemorava as suas Bodas de Ouro, ia nascendo e crescendo o desejo em D. Manuel Martins de poder fazer a formação dos seus seminaristas numa instituição que tivesse a ver com a realidade da sua diocese. E foi assim que, em 1991, nasceu com três seminaristas que o iniciaram, na cidade episcopal, o Seminário de Santa Maria Mãe da Igreja, dando finalmente corpo ao Seminário Diocesano de Setúbal. Deixou-se então de frequentar o Seminário de São Paulo, completando-se somente a restante formação no Seminário dos Olivais. Mesmo este estado de coisas viria a terminar no ano de 1997, com D. Manuel Martins a chamar todos os seminaristas a Setúbal, devido ao facto de entender estarem reunidas todas as condições para a formação ser feita integralmente na Diocese.Neste intervalo de tempo, nunca a situação do Seminário de Almada e do Cristo-Rei surgiu como «natural» aos olhos dos diocesanos de Setúbal, que olhavam com alguma estranheza a sua continuada situação de enclave dentro da nova Diocese, sem resolução definitiva à vista. Pela conjugação de diversos factores, no ano de 1998 foi possível às duas dioceses começarem a encarar a hipótese da transferência, o que, depois de algumas conversações, se veio a realizar a 16 de Julho de 1999, XXIV Aniversário da criação da Diocese de Setúbal, já então presidida pelo seu segundo bispo, D. Gilberto D. G. Canavarro dos Reis. Os seminaristas que estavam em Setúbal vieram então para o Seminário de Almada, mantendo-se os responsáveis: como o Reitor, Mons. Alfredo Brito, e como primeiro Vice-Reitor, o Padre Carlos Rosmaninho. Em 15 de Agosto de 2002, para dar continuidade e renovar tão importante obra diocesana, o Senhor Bispo de Setúbal, como é tradição, assumiu pessoalmente o papel de Reitor, nomeou Vice-Reitor o Padre José Rodrigo da Silva Mendes F.C. e Prefeito e Ecónomo o Padre João Rosa José, sendo este último substituído, em 2005, pelo Padre Fernando Maio de Paiva. No presente ano mantendo-se como Reitor da casa, O Sernhor Bispo nomeou o Padre Fernando Paiva como Vice-Reitor e Ecónomo e o Padre Rui Gouveia como Perfeito.
A instituição Seminário de S. Paulo foi assim plenamente assumida, com a sua história e tradição já longas, pela Diocese de Setúbal, que deseja torná-la coração e viveiro de muitas vocações, para a Diocese e para tudo aquilo que o Senhor pede à Sua Igreja. Procura não desdizer o passado das duas instituições que lhe deram origem: o Seminário Patriarcal de S. Paulo e o Seminário de Santa Maria, Mãe da Igreja. Estes foram como que os «progenitores» desta nova situação do Seminário Maior de S. Paulo: um «pai» ardente no zelo do Apóstolo de quem tomou o nome, e uma «mãe» pobre e simples que toma d'Aquela que lhe deu a existência a fé confiante e a vontade de servir até ao fim, «até à morte e morte de cruz» e «guardando sempre tudo no coração».

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Santa Maria da Graça: Padroeira da Diocese de Setúbal

Confirmação da escolha de Nossa Senhora como Padroeira da Diocese de Setúbal com o título de SANTA MARIA DA GRAÇA e aprovação da respetiva celebração litúrgica

(tradução)

JOÃO PAULO II
para perpétua memória

Considerando que o clero e os fiéis da diocese de Setúbal, em tempos mais recentes, têm honrado e continuam a honrar a Bem-aventurada Virgem Maria com o título de Santa Maria da Graça com um culto particular e constante; o Venerável Irmão Manuel da Silva Martins, Bispo de Setúbal, acolhendo os pedidos comuns do presbitério e do povo católico, aprovou de acordo com o seu poder a escolha da Bem-aventurada Virgem Maria com o título corrente de Santa Maria da Graça como Padroeira da diocese de Setúbal junto de Deus.
Visto, porém, que o mesmo Venerável Irmão pediu com todo o empenho que a escolha e a aprovação fossem confirmadas de acordo com a norma n. 30 (da Instrução acerca dos Calendários particulares e dos Ofícios e Missas Próprios que carecem de aprovação), Nós, com o parecer da Sagrada Congregação para o Culto Divino, de bom grado concordámos com o seu pedido e com a Nossa suprema Autoridade Apostólica confirmamos como Padroeira da diocese de Setúbal Santa Virgem Maria com o título que acima referimos, com todos os direitos e privilégios em conformidade com as rubricas.
Na verdade, firmemente esperamos que esta escolha faça crescer o culto à Bem-aventurada Virgem em toda a diocese de Setúbal e também em cada um dos fiéis e dele nasçam não poucos frutos de piedade cristã e de bons costumes. Além disso, determinamos que estas Nossas Letras sejam devotamente conservadas e alcancem no presente e no futuro o seu pleno cumprimento, não obstante qualquer coisa em contrário.
Dado em Roma, junto de São Pedro, sob o Anel do Pescador, no dia 18 de Março de 1980, segundo do Nosso Pontificado.

                 Augustinus Card. Casaroli
                 a publicis Eccl. negotiis


(texto original)

JOANNES PAULUS PP. II
Ad perpetuam rei memoriam

Cum Beatam Mariam Virginem sub titulo - Santa Maria da Graça - clerus atque christifeles diocoesis Setubalensis recentioribus temporibus peculiari necnon assiduo cultu prosecuti sint e adhuc prosequantur, Venerabilis Frater Emmanuel da Silva Martins, Episcopus Setubalensis, presbyterii et populi catholici communia excipiens vota, electionem Beatae Mariae Virginis sub titulo vulgo dictu -Santa Maria da Graça - in Patronam apud Deum dioecesis Setubalensis poteste sua rite approbavit. Quoniam autem idem Venerabilis Frater enixe rogavit ut electio e approbatio huiusmodi ad normam - , Instructionis de Calendariis particularibus atque Officiorum et Missarum Propriis recognoscendis - n. 30, confirmaretur, Nos ex setentia Sacrae Congregationis pro Culto Divino eius precibus libenter annuimus et suprema Nostra Apostolica auctoritate Sanctam Virginem Mariam diocoesis Setubalensis Patronam apud Deum sub titulo, quem supra memoravimus, confirmamus, cum omnibus iuribus et privilegiis iuxta rubricas consequentibus. Profecto Nos confidimus fore ut hac electione et cultus Beatissimae Virginis in tota diocoesi Setubalensi et in singulis fidelibus augeatur, et inde non pauci pietatis christianae et bonorum morum fructus oriantur. Ceterum decernimus ut hae Litterae Nostrae religiose serventur suosque nunc et in posterum habeant effectus, contrariis quibuslibet non obstantibus.
Datum Romae, apud Sanctum Petrum , sub Anulo Pescatoris, dia XVIII mensis Martii, anno Domini millesimo nongentesimo octogesimo, Pontificatus Nostri secundo.

                 Augustinus, Card. Casaroli                 A publicis Eccl. negotiis

sábado, 8 de novembro de 2014

Memória dos Diáconos e Presbíteros já falecidos




Memória dos Diáconos e Presbíteros já falecidos que serviram a Igreja Diocesana de Setúbal, desde a criação da Diocese (1975)



Os Apóstolos nunca mais esqueceram o momento em que Jesus lhes tocou o coração: «Eram quatro horas da tarde» (Jo 1, 39)” (Papa Francisco, EG, 13)



No passado dia 6 de Novembro– mês das “almas”, em que somos convidados a fazer memória daqueles que nos precederam na fé implorando para eles a plenitude da vida do Céu – foi feito o sufrágio dos padres e diáconos que serviram a diocese de Setúbal, na Sé e nas Paróquias.

Eles foram – serão sempre – padres e diáconos chamados por Cristo, por meio da Igreja, que viveram, amaram, serviram, em nome de Jesus, como cooperadores do ministério apostólico, a Igreja de Setúbal.

Terminaram já a sua “função” de serviço. Dizemos deles que são “defuntos”. Continuam, porém, vivos em Deus e na nossa memória, como testemunhas da fé e do serviço ao Evangelho.

Neste ano, em que nos preparamos para a celebração dos 40 anos da criação da nossa Diocese, esta memória/sufrágio adquire um especial significado. A Igreja, por vontade de Cristo, não pode existir sem este ministério, pelo Ele se faz presente na Sua Igreja e a santifica. Lembramos especiais testemunhas da fé, não só vivida, mas também comunicada através do ministério ordenado, nos sacramentos, na pregação e na edificação da comunidade.

Fazemos deles uma memória agradecida a Deus pelo dom das suas vidas e do seu ministério, de que tantos e tanto beneficiaram. É a memória que fazemos de irmãos que escutaram o chamamento de Cristo que lhes tocou o coração, tal como aos primeiros discípulos. Memória que nos toca também a nós – padres, diáconos, religiosos, religiosas, fiéis leigos – para que, volvidos quase 40 anos sobre o momento inicial da nossa Diocese de Setúbal, renovemos com redobrado vigor o encanto, a alegria, a disponibilidade de, como discípulos missionários, servirmos Cristo, a Igreja, o Evangelho.

É a memória a que o Papa Francisco chama “deuteronómica”: uma memória agradecida e estimuladora de novo fôlego na fé e na missão, porque que nos faz presente uma «nuvem de testemunhas» (Heb 12, 1)” (cf. EG 13).



Quem são aqueles de quem, no dia 6, iremos fazer memória e sufrágio?

São dois diáconos permanentes, dos primeiros ordenados em Portugal após o Concílio Vaticano II: António Godinho e Inácio Silva.

São os dois primeiros vigários gerais: Padres Manuel Marques e Alfredo Brito.

São padres diocesanos a quem estavam confiadas paróquias em 1975: Agostinho Gomes (Castelo de Sesimbra); António Sobral (Barreiro); Jaime da Silva (Almada); José Gonçalves (Alcochete e Samouco); Manuel Frango (Azeitão); Manuel Gonçalves (Montijo); Mário Lopes (Costa da Caparica e Trafaria); Ricardo Lopes (Cova da Piedade). E também o P. João da Cruz, vindo de Lamego e que foi incardinado em Setúbal.

São padres de Institutos Religiosos: Capuchinhos (Alípio Quelhas, Daniel Ferreira, Manuel Belo); Jesuítas (Amadeu Pinto, Duarte Teixeira, Honório Santos, José dos Santos, Norberto Lino, Norberto Martins, Roberto Sequeira); Claretianos (Américo Faria, José Gonçalves, José Seixas, Manuel Leal); Scalabrinianos (Antonio Benetti, Attilio Barichello, Giuseppe Magrin, Luigi Tacconi, Luigi Vaghini); Filhos da Caridade (Joseph Poiron); Franciscanos (João Magalhães).

São padres diocesanos de outras dioceses: Camilo Martins, José Esteves e Júlio Nogueira, de Évora; Joaquim Sampaio, do Porto.



Estimulados por esta “nuvem de testemunhas”, somos a Igreja de Setúbal que, com Maria, se ALEGRA e EVANGELIZA!



sábado, 1 de novembro de 2014

Memória deuteronómica

«Deste modo o autor da Carta aos Hebreus chama a estar atentos aos que anunciaram o Evangelho e que já se foram... pede-nos para que recordemos a partir da fecundidade do que semearam entre nós. Pede-nos para que recordemos com a memória do coração, a memória deuteronómica que constrói sobre a rocha, que plasma vidas e marca corações.»

 

«“Lembrai-vos dos vossos dirigentes, que vos anunciaram a palavra de Deus. Considerai como terminou a vida deles, e imitai-lhes a fé” (Hb 13, 7). Deste modo o autor da Carta aos Hebreus chama a estar atentos aos que anunciaram o Evangelho e que já se foram. Pede-nos para lembrá-los, mas não daquele modo formal e, às vezes, comiserador, que nos faz dizer “quanto era bom!”, uma frase que ouvimos com frequência nos cemitérios. Este tipo de memória é uma simples recordação de formalidade social. Ao invés, pede-nos para que recordemos a partir da fecundidade do que semearam entre nós. Pede-nos para que recordemos com a memória do coração, a memória deuteronómica que constrói sobre a rocha, que plasma vidas e marca corações. Sim, o nosso coração se edifica sobre a memória daqueles homens e daquelas mulheres que nos aproximaram das fontes de vida e de esperança à qual poderão chegar também os que nos seguirem. É a memória da herança recebida, que por nossa vez, devemos transmitir aos nossos filhos.
Então, com essa memória, recordamos (os que já partiram) e perguntamo-nos: o que nos deixou cada um? Quais são as suas marcas que encontramos no caminho da nossa vida?
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Agradeçamos a Deus nosso Senhor por tê-los conhecido. São dirigidas também a cada um de nós as palavras “considerai como terminou a vida deles, e imitai-lhes a fé” da Carta aos Hebreus.»

Buenos Aires, 6 de maio de 2012
Cardeal Jorge Bergoglio (atual Papa Francisco)